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Como ajudar as crianças a lidar com o conflito entre pares? 

conflito

A maioria das pessoas atribui ao conflito umconotação negativa. Encara-o como algo a evitar ou a resolver rapidamente quando ocorre. Porém, na realidade, as relações são processos dinâmicos. Estão sempre numa espécie de movimento e mudam ao longo do tempo (quer à escala do dia, quer dos meses e anos). Assim, o conflito não apenas é normal como é necessário, servindo vários propósitos nas relações. 

 

O papel do conflito nas relações entre crianças

De acordo com alguns estudos, os conflitos nas relações entre pares durante a infância (isto é, entre crianças mais ou menos da mesma idade) são frequentes nas seguintes situações:  

  1. Quando os miúdos estão em espaços pequenos e fechados 
  2. Entre crianças mais novas (o número de conflitos entre miúdos de 3 anos tende a ser maior do que entre crianças de 5);  
  3. Quando os envolvidos têm uma relação de amizade mais estável;  
  4. Quando estão presentes adultos que interferem para tentar resolver a desavença. 

Assim, a primeira questão que importa compreender é que o conflito é um “ingrediente” natural das relações, seja na infância ou depois desta. 

Em crianças mais novas, o conflito tende a assumir uma forma mais física. Gravita normalmente em torno de territórios, posses ou objetos (essencialmente brinquedos), mas também atenção e afeto de outras pessoas). 

Ou seja, as crianças conflituam, discutem e muitas vezes envolvem-se em luta física (em particular os rapazes) como forma de resolver desacordos. No entanto, à medida que crescem ganham experiência e melhores ferramentas (mais vocabulário ou capacidade para regular emoções, para partilhar e para esperar)é provável que o número de contendas deste tipo diminua. 

 

O conflito e a amizade

O desenvolvimento de relações de amizade leva a que as crianças consigam ser mais tolerantes 

Porém, há estudos que indicam que o número de conflitos entre crianças com uma amizade estável tende a ser maior do que entre miúdos que não são amigos. 

Entre outras explicações, supõe-se que tal aconteça porque as crianças que estão mais seguras das suas amizades sabem que, embora se desentendam e discutam, isso não será uma ameaça para a relação. Ou seja, compreendem que não é por isso que vão deixar de ser amigas. Já no caso de crianças sem este laço de afeto mais sólido, o conflito pode pôr fim à relação. 

Deste modo, quando o adulto observa situações de desentendimento, deve ter presentes estas variações. A importância ou necessidade de intervenção dependem desta caracterização. 

 

A intervenção dos adultos nem sempre é necessária

No caso de crianças mais novas (quando não está em causa a integridade e segurança física e emocional), o papel do adulto é desejavelmente o de moderador ou mediador. Deve sentar-se perto das crianças pedir que cada uma, à vez, explique o que está a acontecer. Pode questionar cada uma sobre como imagina que pode resolver a situação e anotar. 

Quando assume um papel deste tipo, o adulto deve fazê-lo com seriedade e atençãoDeve usar poucas palavras e explicações, focando-se no entendimento no sentimento de justiça para cada criança. 

papel do adulto deve ser ajudar os mais novos a assumirem um compromisso, um entendimento, valorizando as emoções e a situação de discórdia. Desse modo, as crianças irão sentir-se respeitadas e tenderão a corresponder, fazendo um esforço para reparar a situação e retomar a interação. 

 

A importância do contexto

Por fim, importa acrescentar que as características do espaço físico influenciam os conflitos na sua qualidade, quantidade e resolução. A forma como os afetam também não é linear. 

Quando o espaço é menor, interior e com mais crianças, é provável que ocorram mais conflitos. Já elocais abertos e exteriores, mais amplos e mais naturaisa tendência é para que existam menos desavençasAlém disso, quando ocorremdispersam rapidamente, porque há muito espaço para “arejar”. 

No geral, isto é verificado pelos pais na sua própria experiência, por exemplo entre irmãos. Quando vão para a praia, para a natureza ou para locais onde há espaço e menos brinquedos ou objetos que pertencem às crianças, as discórdias diminuem. Os mais pequenos tendem a estar mais harmoniosos nas suas interações, dedicando-se à exploração conjunta do espaço. 

 

Quando e como devem os adultos intervir?

Se for no “momento da ação”, o adulto pode intervir usando as estratégias de mediação ou moderação. Mas deve estar muito atento e dar oportunidade às crianças para resolverem a situação. 

Se for após conflitopode conversar com a criança sobre a situação. Principalmente se considerar que a resolução não foi justadeve ajudá-la a pensar, a sentir e a antecipar outras possibilidades de resolução em situações futuras. Poderá dar exemplos, contando episódios da sua própria experiência. O mais importante é ser honesto e não moralizar, punir ou desvalorizar o que a criança sente e pensa. 

Conversar com especialistas sobre esta temática também pode ajudar. Infelizmente, não é assim tão invulgar que os adultos utilizem estratégias pouco maduras para resolver as suas própriadesavenças. 

Por vezes, fugimos a sete pés ou queremos rapidamente sair de situações conflituosas. Acabamos por tentar resolver tudo apressadamente, sem o tempo e o espaço necessários para tomar decisões que talvez trouxessem benefícios a longo prazo. 

Afinal, o conflito é uma possibilidade para reconfigurar, para crescer e tomar decisões. Uma oportunidade de fazer mudanças positivas e de reencontro, quer com os outros, quer consigo mesmo. 

 

Maria Inês Peceguina – Ph.D Psicologia do Desenvolvimento   

QInesis – Núcleo de Saúde e Educação 

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