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Ciúmes entre irmãos: Melhores amigos vs piores inimigos 

ciúmes entre irmãos

Os ciúmes entre irmãos marcam, não raras vezes, as relações familiares. Os irmãos são (ou podem ser) companheiros, confidentes, aliados e modelos, quer durante a infância, quer na adolescência. Muitas vezes, têm até um papel de suporte durante a vida adulta. Mas podem ser também grandes rivais e estar em luta constante pela atenção dos pais, pelo território e por objetos como os brinquedos.

A intensidade dos afetos pode, às vezes, ser extrema. A rivalidade entre irmãos, apesar de natural e vivida pela maioria, nem sempre é de lide fácil, quer para as crianças, quer para os pais.

Para os irmãos mais velhos, o bebé é um novo objeto que não estava antes presente e que vem alterar os padrões das relações que existiram até ao momento. A forma como esta intromissão é vivida depende de vários fatores, entre os quais a idade da criança, a qualidade da relação com os seus cuidadores, a estrutura e a dinâmica da família.

Para a criança mais nova, no entanto, a mais velha não é vista inicialmente como intrusa. Só passado algum tempo, quando crescer, é que encarará o irmão mais crescido como um rival. Os ciúmes começarão, então, a fazer-se sentir.

 

Porque surgem os ciúmes entre irmãos?

Geralmente, durante o primeiro ano de vida, os bebés respondem aos seus irmãos mais velhos como figuras de afeto (de vinculação). Dirigem-lhes sorrisos e tentam chegar-lhes esticando os braços quando estes aparecem no seu campo de visão.

Com o desenvolvimento da locomoção, o bebé passa a ser capaz de chegar aos brinquedos dos irmãos mais velhos, o que se constitui algo potencialmente muito irritante (mais uma vez, depende da idade e da personalidade da criança). Este movimento constitui uma exploração do mundo, mas é também a manifestação de um desejo: querer o que os irmãos têm.

Por volta do segundo ano, começam os conflitos. A criança mais nova compete de forma mais ativa pela preferência, tempo, atenção e afeto dos pais (e também pelos brinquedos, outro tipo de objeto de afeto).

É por esta altura que surge a afirmação que quase todos os pais com mais de um filho sabem de cor: “É meu”. Do ponto de vista do desenvolvimento infantil, esta manifestação é um sinal muito positivo. Indica que a criança se vê de forma separada e diferente do outro. Esta fase, na relação entre os irmãos, oscila entre:

  1. Rivalidade, conflito, ciúme e inveja;
  1. Adoração, imitação e desejo de ser como o(s) irmão(s).

Muitos pais descrevem frequentemente as dimensões negativas desta relação como o desafio mais difícil, referindo não raras vezes retrocessos no comportamento da criança mais velha, que parece outra vez um bebé.

 

A chegada de um irmão e os ciúmes

Um conceito importante quando refletimos sobre a insegurança da criança com a chegada de um novo irmão é o de vinculação. O mesmo pode manifestar-se através de comportamentos de ciúme e rivalidade.

Em síntese, a vinculação consiste numa relação de apego, um vínculo ou laço de amor que é fundamental para a sobrevivência e que se manifesta, essencialmente, por dois movimentos: o de aproximação à figura de vinculação (por exemplo, o pai) e o de afastamento em relação a estranhos e situações desconhecidas.

Esta relação desenvolve-se durante o primeiro ano de vida do bebé, estabilizando ao longo do segundo ano. A qualidade da vinculação com o cuidador é determinante para a qualidade da relação entre os irmãos.

Há estudos que indicam que, durante os primeiros três anos, as crianças com vinculação insegura às mães exibem um maior número de conflitos com os irmãos. Mais tarde, no pré-escolar, acabam por ter mais comportamentos de hostilidade.

 

O que podem os pais fazer perante os ciúmes entre irmãos?

Nas situações em que os ciúmes entre irmãos se tornam um problema, é recomendável os pais não agirem no imediato. Importa essencialmente compreender e só depois, mais ou menos espontaneamente, atuar se necessário.

 

Construir relações de confiança

Sobre a questão do retrocesso do irmão mais velho, talvez o mais importante seja dar espaço à criança para rever o seu bebé, celebrá-lo e acolhê-lo. A regressão é necessária para que possa depois existir progressão.

Ver fotografias, filmes e registos sonoros em família pode ajudar. Explorar essas memórias e valorizar a forma como a criança foi capaz de aprender e desenvolver tantas capacidades é uma ótima estratégia, até porque reforça a importância desse seu lugar de criança mais crescida.

Quando uma criança se sente segura na relação com a(s) figura(s) de vinculação – quando é mais velha, podem existir vários adultos de referência –, o desenvolvimento de uma relação positiva e de proximidade com um novo irmão é mais fácil. Ao contrário, se a criança se sentir muito insegura, pode originar um maior número de conflitos ou, por outro lado, evitar o novo irmão.

Uma e outra situação são importantes e merecem a atenção dos pais.  Melhorando a confiança, a segurança e a proximidade entre a criança e os cuidadores, é possível reduzir a negatividade face ao novo irmão.

Ainda assim, mesmo quando a relação com os cuidadores é segura, é possível que a criança apresente comportamentos de ciúme e rivalidade.

 

Educar através do exemplo

Os processos de diferenciação ou desidentificação, pelos quais cada criança tende a desenvolver qualidades que a distinguem das outras, tornam as relações entre irmãos mais harmoniosas, uma vez que deixam de competir pelas mesmas coisas.

Os pais podem ajudar o irmão mais velho a reforçar a sua identidade. Construir uma lista com aquelas que são as suas qualidades pode ajudar, uma vez que o distingue dos irmãos. Este exercício aplica-se quer com a chegada de um novo irmão, quer com irmãos mais velhos, em momentos de maior tensão e conflito na relação.

As crianças tendem a imitar o que observam. Assim, se virem adultos que resolvem de forma eficaz os seus conflitos, é mais provável que aprendam boas estratégias para resolver discórdias e problemas futuros. Desta forma, compreendem que o conflito faz parte das relações.

As teorias sobre esta matéria sugerem ainda que as crianças tendem a imitar adultos cuidadores que são calorosos, de quem gostam e com os quais se identificam. O estatuto também parece ter influência, pelo que, dentro da família, os miúdos tenderão a imitar as pessoas mais velhas (sejam irmãos, pais, tios ou avós).

 

Intervir calmamente

Durante a infância, a intervenção dos pais na resolução de conflitos causados por ciúmes entre irmãos parece ser eficaz quando utilizadas as seguintes estratégias:

  • Pedir a cada criança que expresse a sua perspetiva sobre a situação em causa. Posteriormente, dizer qual a perceção que você, enquanto elemento externo, tem do conflito;
  • Propor um acordo, solicitando a cada criança (em função da idade) que diga em que aspetos está disposto a ceder, a negociar e do que não quer abdicar.

O conflito e as manifestações de ciúmes entre irmãos podem gerar nos progenitores emoções conflituosas. Por isso, esta mediação raramente acontece de forma calma e assertiva por parte dos pais.

Tomar consciência disso é fundamental para que, em situações futuras, os pais possam dar um passo atrás antes de dar dois em frente. E lembrar-se que, quase sempre, a criança utiliza as melhores ferramentas que tem à sua disposição, ou seja, faz o que consegue.

 

Maria Inês Peceguina – Ph.D Psicologia do Desenvolvimento
P’la QInesis

 


 

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