Contar histórias infantis: Um sem-fim de possibilidades!

contar histórias infantis

Quando pensamos no desenvolvimento de uma criança, nem sempre nos lembramos da importância de contar histórias infantis. Vêm-nos geralmente à ideia questões relacionadas com o corpo e o movimento: se gatinha, se já anda ou corre, se é capaz de ultrapassar obstáculos. Pensamos também em questões relativas às suas aquisições mais cognitivas e relacionais: se já sabe falar e expressar-se fluentemente, se aprende na escola aquilo que os adultos pretendem ensinar, etc. No entanto, algo que não é tão óbvio tem a ver com a capacidade de imaginação e criação imaginária que a criança demonstra.

À medida que vão aparecendo as representações mentais dos objetos presentes no quotidiano, o pequeno vai adquirindo a capacidade de os recriar imaginativamente. Na ausência do real, consegue imaginar narrativas nas quais as representações que apreende (pessoas, animais ou objetos) são os protagonistas.

Uma das melhores formas de estimular esta criatividade é contar histórias infantis, nas quais nem tudo é óbvio, mas onde existe espaço para que a imaginação da criança se possa preencher e crescer!

Consumir histórias noutras plataformas, como a TV e o Youtube, pouco ou nada deixa à imaginação. Já a narração de histórias permite uma muito maior “participação” por parte do ouvinte. Pense, por exemplo, na diferença entre ler um livro ou ver um filme baseado na mesma obra. No livro, a subjetividade do leitor permite-lhe representar o aspeto dos personagens de uma forma muito pessoal, enquanto num filme todos vemos exatamente as mesmas feições dos personagens, havendo, portanto, menos individualidade.

 

A importância do conto nas diversas áreas do desenvolvimento infantil

Este artigo tem como objetivo advertir para a extrema importância de contar histórias infantis a crianças, logo desde que começam a desenvolver a sua linguagem. Visa também alertar para a forma como esta prática ajuda nas aquisições e desenvolvimento nos planos relacional, cognitivo e emocional, pedagógico, social e até histórico e cultural.

 

Desenvolvimento cognitivo

A importância de contar histórias infantis é bastante clara. A narração oral permite às crianças ouvir, compreender e perguntar sobre novas palavras que no quotidiano normal não apareceriam contextualizadas. Assim, estas abrem horizontes e expandem o seu campo lexical.

Mais palavras levam a representações mentais mais completas, o que enriquece a representação interior que o pequeno faz do mundo que o rodeia. Também a matemática e outras ciências podem ser ensinadas através de histórias, mantendo a criança curiosa e motivada para a aprendizagem!

 

Desenvolvimento emocional

É inegável a importância que as histórias podem ter para que as crianças consigam reconhecer, entender, consciencializar e expressar de forma assertiva as suas emoções e sentimentos. Sendo estes conceitos altamente abstratos, os contos infantis podem, através do simbólico, apresentar de uma forma percetível até as emoções mais complexas.

Sentimentos negativos e positivos são mais facilmente reconhecidos e, por isso, podem ser expressados na relação com os pares e com os adultos, ao invés de serem interiorizados e acumulados até se tornarem incómodos, fonte de stress ou motivos de comportamentos introvertidos ou agressivos para com os outros.

Nos mais pequenos, os próprios sentimentos podem ser representados por objetos e expressões que a criança já reconheça. Já nos mais velhos cria-se uma relação empática com as personagens da narrativa, que permite à criança vivenciar indiretamente os conflitos e as resoluções vividos pelas personagens. Estas experiências são percursoras no desenvolvimento da própria personalidade da criança.

 

Plano pedagógico, comportamental e social

As histórias podem ser muito úteis nos processos de transição. Muitas vezes, na passagem de um ciclo para o outro, pedem-se transições demasiado rápidas ou bruscas para o ritmo pessoal da criança. Tal pode levar a alguns contratempos, angústias e algum tipo de sofrimento.

Podemos recorrer às narrativas, tornando a criança a personagem principal da história, e conferindo-lhe poder e confiança para ultrapassar essas transições da forma que lhe é solicitada. Também hábitos rotineiros, como por exemplo de higiene ou alimentação, podem ser reforçados através desta prática.

 

Ponto de vista histórico e cultural

É muito interessante relembrar como cada país, cada cultura, na sua época específica, possui contos e lendas próprios, combatendo a aculturação que resulta de uma globalização cada vez mais instituída. Cada cultura tem as suas próprias histórias. Isso, por si só, confere-lhe uma identidade mais aprofundada, aumentando a sensação de identificação com o outro e de pertença.

A partilha de valores, crenças e medos tem sido passada por via narrativa, oral ou escrita de geração em geração. Normalmente é feita com um sentido de fundo de aprendizagem social (provérbios, por exemplo). Regras, normas sociais, dicas de boa convivência… tudo isto pode ser incorporado nas histórias e ensinado de forma lúdica, mas duradoura!

 

Como contar histórias infantis de forma eficaz

Para garantir a eficácia do uso da narrativa na potencialização do desenvolvimento das crianças, devemos ter em atenção alguns aspetos. Um deles é escolher uma narrativa adequada à idade da criança.

Até aos 3 anos, devemos contar histórias infantis simples, de ritmo lento. As mesmas devem conter expressões conhecidas pela criança, mas também aproveitar a oportunidade de introduzir palavras e conceitos novos.

Entre os 3 e os 6 anos, os pequenos preferem histórias de aventuras, heróis e vilões, com o bem e o mal bastante marcados. Tudo preto no branco! Esta é uma boa idade para introduzir contos e lendas tradicionais. Já a partir dos 7 anos, a imaginação é quase ilimitada. Com tantos conceitos já apreendidos, podemos tornar mais complexas as tramas e o enredo das narrativas.

Se possível, devemos conhecer bem a história infantil antes de a contar. Desta forma, podemos enriquecê-la com comunicação não-verbal, expressões, sons, onomatopeias, gestos ou pequenas teatralizações. Assim, envolvemos ainda mais a criança na história e aumentamos o seu interesse!

Não nos devemos esquecer de que a comunicação não-verbal é a mais importante via de relação com os outros. Portanto, estamos a permitir às crianças aprenderem por forma a expressarem as emoções que são narradas e vivenciadas através da história.

Acima de tudo, devemos aproveitar a intimidade e aproximação que se criam nestes momentos. A criança está presente para o adulto, numa relação sem distrações e que enriquece ambas as partes! Por isso, DIVIRTAM-SE!

 

Dr. João Coelho
QInesis

 


 

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