Estudar gramática? Porquê e para quê?

estudar gramática

Porquê estudar gramática? Esta é uma questão que, mesmo que não tenha verbalizado, certamente já lhe passou pela cabeça. Aos nossos alunos coloca-se-lhes amiúde e não é fácil esclarecê-la.

A lógica parece imbatível: Falamos português desde “o berço”. Aprendemos a nossa língua materna tão naturalmente como aprendemos a andar. Adquirimos a estrutura da nossa língua de forma progressiva e, quase intuitivamente, somos capazes de interiorizar e utilizar mecanismos linguísticos cada vez mais complexos. Então, por que razão temos de estudar gramática? É uma “seca”!

Todos nós, ainda antes de nos sentarmos nos bancos da escola, já somos detentores de uma gramática implícita. Esta torna-nos, de certo modo, proficientes no uso que fazemos da língua, inicialmente, ao nível da oralidade. Mais tarde, paulatinamente, vamos adquirindo as competências da leitura e da escrita que nos permitem comunicar e compreender cada vez melhor o mundo que nos rodeia.

Contudo, para que estas aprendizagens sejam bem-sucedidas, é fundamental conhecer o seu suporte. Isto é, estudar a gramática da língua que utilizamos, seja numa perspetiva de falar, ouvir, escrever e ler bem, seja com o propósito de a entendermos de forma consciente, ou seja, a sua norma e os seus desvios.

 

Porque é tão importante estudar gramática?

O estudo da gramática deve ser considerado transversal, pois é nele que assenta a sedimentação de outros saberes. Na verdade, é através do conhecimento consciente da gramática da nossa língua que poderemos ter maior segurança na forma como escrevemos e falamos. Conseguimos, assim, modelar o nosso discurso exatamente como desejamos, adequado ao contexto e atingindo os nossos objetivos. É também através deste estudo que podemos compreender o que lemos e ouvimos de modo mais aprofundado, interpretando os vários textos em todas as suas camadas.

Neste sentido, o papel da Escola é potenciar o espírito reflexivo e crítico, ou seja, ensinar a pensar e estimular a curiosidade. Por isso, é crucial munir os alunos da capacidade de desenvolver a consciência do funcionamento da língua através da qual comunicam, para uma integração completa e efetiva na sociedade.

Podemos estabelecer uma comparação com outras áreas do saber, usando a analogia da linguista Maria Helena Mira Mateus. Estudar gramática é como estudar o sistema respiratório, embora todos nós respiremos, ou estudar o sistema digestivo, mesmo que todos saibamos que a alimentação é vital. Portanto, como criar o gosto pelo estudo da gramática?

 

Como podemos estudar gramática?

Há várias abordagens ao estudo desta disciplina: normativa, descritiva, histórica, comparativa, entre outras. Todas elas se completam e são fundamentais para compreender uma língua e a sua cultura. Não obstante, na Escola privilegia-se, essencialmente, a abordagem normativa e descritiva. Por um lado, a primeira procura a padronização através de regras prescritivas para se alcançar uma norma culta. A segunda, por outro, pretende analisar e descrever o uso da língua, contemplando as variações linguísticas, sem impor o que é correto e errado.

Encontrar o equilíbrio entre estas abordagens, em sala de aula, é um desafio. Para chegar aos alunos, não basta debitar e explicar um conjunto de regras que, de forma descontextualizada, não fazem qualquer sentido e não são cativantes.

É fundamental partir de situações familiares, seja num contexto oral ou escrito. A partir daí, várias metodologias são possíveis, mas o mais importante é que o aluno seja parte ativa neste processo. É essencial que seja ele a confrontar-se com vários dados linguísticos e que vá “brincando” com a língua, estabelecendo comparações, contrastes e chegue às suas próprias conclusões, que terá de testar. Só no fim será confrontado com as regras e as poderá aplicar com propriedade ao uso que faz da língua no seu dia-a-dia.

 

Ensinar gramática? Porquê?

É evidente que não basta ensinar e estudar gramática para a aprendizagem de uma língua. Também é manifesto que descontextualizar esta disciplina resulta no desinteresse dos discentes. Urge, portanto, considerar a gramática um organismo vivo, que vai evoluindo conforme o uso que se faz da língua, mas que também a baliza e condiciona a forma como nos comunicamos e entendemos o mundo que integramos.

Além disso, não nos esqueçamos que é a gramática que preserva o nosso maior património cultural, a nossa língua. Por isso, faz todo o sentido estudar gramática!

 

Anabela Ribeiro
Filomena Silva
Professoras de Português

 



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