Desenvolvimento infantil: A tecnologia e a vida familiar!

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Não há dúvida de que, nas últimas décadas, tem havido uma tremenda evolução tecnológica. O acesso às novas tecnologias por parte dos cidadãos tem influenciado as dinâmicas familiares e, consequentemente, o desenvolvimento infantil e juvenil.

A possibilidade de ter a última tecnologia nos nossos próprios bolsos transformou drasticamente a vida pessoal de cada um. Este tem sido um tema abundantemente abordado. Ainda assim, a poucas conclusões se tem chegado acerca do que podemos efetivamente fazer em relação aos problemas que podem surgir destes “avanços tecnológicos”.

Antes de mais, queria lembrar que a tecnologia, por si só, não é boa ou má. Depende tudo do uso que lhe damos enquanto pessoas. Comecemos por sumariar algumas vantagens  que os avanços tecnológicos nos proporcionam:

  • Maior facilitismo na comunicação;
  • Estamos a par das novidades, ao momento;
  • Informação sempre acessível;
  • Compras online;
  • Media social;
  • Aparência de pertença e comunidade;
  • Possível estimulação da criatividade.

Com tantos pontos positivos, porque devemos então ter muito cuidado com a maneira como lidamos com aparelhos eletrónicos em casa? De que forma podem os dispositivos eletrónicos afetar o desenvolvimento infantil?

 

A influência dos avanços tecnológicos no desenvolvimento infantil

Por um lado, parece ótimo que possamos facilmente ligar ou enviar mensagens a alguém que está longe. Mas, por outro lado, esta forma de comunicação tem algumas desvantagens:

  1. A comunicação não-verbal é a que tem maior importância a nível relacional. É a componente comunicativa que mais nos conecta como humanos. Apesar de podermos utilizar videochamadas e recorrer, por exemplo, a emojis, ainda  nada chega perto de substituir a verdadeira comunicação não-verbal. Esta – recorde-se – só se atinge presencialmente!
  2. É suposto existirem tempos para nos relacionarmos com os outros e momentos reservados apenas para nós. Estes últimos são tempos reparadores, em que nos retiramos por momentos da interação com o outro.
    A realidade é que uma falsa sensação de necessidade de conexão constante passou a fazer parte da nossa vida. A mera ideia de, por algumas horas, desligarmos o telemóvel (ou deixarmo-lo em casa) chega para deixar ansioso qualquer um. Para além do prejuízo evidente para a saúde mental, esta adição/dependência está a afetar-nos a nível biológico. Por exemplo, altera a produção de certos neurotransmissores, nomeadamente a dopamina e o cortisol, entre outros.
  3. Para que uma comunicação tenha qualidade e nos faça sentir ligados a quem está próximo, não podemos estar sempre à espera de ser contactados através do smartphone. A pessoa com quem estamos presencialmente pode sentir-se menosprezada ou passada para segundo-plano se não tiver verdadeiramente a nossa atenção.

 

A influência das novas tecnologias na vida familiar

Não é preciso um grande esforço para observarmos as diferenças registadas na dinâmica familiar desde há 10 anos atrás. Cada elemento tem consigo um ou mais aparelhos pessoais de comunicação, um ou mais ecrãs, que são usados quase sempre de forma individual. Tal afeta, indubitavelmente, o desenvolvimento das nossas crianças.

A vida social que é criada a nível virtual pode ser um complemento a uma vida social real, mas nunca a pode substituir! Hoje em dia, a barreira que separa estas duas realidades é mais ténue e é difícil esquecermo-nos disto.

Os jovens estão, muitas vezes, sujeitos a diversas formas de ansiedade e sentimentos de rejeição gerados online. Além disso, é muito difícil para os pais acompanhar e, se necessário, intervir nesta matéria. Apesar de não ser tema deste artigo, não queria deixar de relembrar estas questões.

É certo que um tablet (bem utilizado) pode proporcionar a uma criança um estímulo intelectual e cognitivo. Porém, estes momentos nunca podem substituir ou reduzir tempos para atividade física, essencial para o desenvolvimento infantil saudável!

Os períodos de interação familiar são declaradamente curtos! Ao fim do dia e após uma extenuante rotina de trabalho, é fundamental impedir que o uso destes aparelhos se torne mais uma barreira comunicativa.

Por vezes, as novas tecnologias levam a que a partilha de vivências entre pais e filhos perca prioridade ou deixe de existir. Assim, coisas tão básicas e fundamentais como tempos de contacto ocular acabam por se perder.

 

Não seria tão bom que tivéssemos mãos para dar em vez de ecrãs para nos isolar?!

 

Dr. João Coelho
QInesis

 



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