Sono: A importância de dormir para aprender!

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O sono é o tema do artigo que se prepara para ler. Contudo, não pretendemos colocá-lo a dormir. Muito pelo contrário, gostaríamos mesmo que tivesse tido uma noite descansada e reparadora de sono antes de iniciar esta leitura.

Acreditamos que essa é a melhor forma de aprender o que pretendemos agora partilhar consigo. Se tal não for possível, ambicionamos que este possa ser o momento de viragem. Que possa repensar os seus hábitos de sono e implementar as mudanças necessárias para desfrutar de noites verdadeiramente descansadas.

A que horas costuma deitar-se?

Quanto tempo demora a adormecer?

A que horas acorda de manhã?

Costuma dormir a sesta? Com que frequência? Quanto tempo?

Se parou alguns segundos para responder às questões partilhadas, reparou certamente que pretendem investigar um aspeto central do nosso sono: a quantidade de horas que dormimos. Se é pai ou mãe, procure responder a estas perguntas atendendo aos hábitos de sono do seu filho/a. Será, sem dúvida, um bom ponto de partida para iniciar esta investigação.

 

O que é o sono?

O sono é uma função natural e básica sujeita a um desenvolvimento próprio ao longo da vida do ser humano. É amplamente reconhecida a sua importância no funcionamento do sistema nervoso central. Tal deve-se ao seu papel na memorização e consolidação da informação, à relação com o desempenho em tarefas executivas e ainda à sua função na regulação emocional. Assim, dormir bem está naturalmente associado a uma melhor aprendizagem, capacidade de concentração, controlo da irrequietude motora e gestão emocional.

 

Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer!

O número de horas de sono tem vindo a diminuir de forma acentuada na população em geral. Estamos constantemente sujeitos a múltiplas solicitações. O ritmo de vida e os padrões e interações sociais criados conduzem-nos de forma cada vez mais intensa a uma alteração dos ritmos biológicos do nosso corpo. O sono não é exceção.

 

O jet lag social é um exemplo de como fatores de natureza contextual/cultural influenciam o relógio biológico, condicionando o ritmo circadiano. Sofremos deste fenómeno quando o nosso relógio biológico se encontra dessincronizado da nossa agenda social. O mesmo provoca uma intensa desregulação dos hábitos de sono (sono insuficiente, fora de horas e exposição à luz).

 

Ao longo da vida, assistimos a um decréscimo natural na quantidade e qualidade do nosso sono. Em recém-nascido, o ser humano necessita de um maior número de horas a dormir. Tal está associado, sobretudo, a aspetos de maturação biológica, em parte relacionados com o desenvolvimento do sistema nervoso central.

É durante o sono que a hormona do crescimento é libertada. É, por isso, fundamental que um bebé durma um conjunto de horas mais significativo. A duração vai diminuindo gradualmente à medida que a criança vai crescendo. Ao longo da primeira e segunda infâncias, as noites são naturalmente complementados com sestas durante a manhã e/ou tarde.

A figura abaixo dá-nos um intervalo de referência quanto à quantidade de horas de sono nas várias fases do desenvolvimento. Esse pode assumir-se como um padrão de referência, mas não devem ser descuradas possíveis características individuais de cada ser humano.

 

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De que forma o stress afeta o sono?

Os fatores ambientais, contextuais e psicológicos associados ao stress quotidiano afetam o ritmo circadiano do sono. O stress no trabalho e na escola destacam-se como preponderantes.

A comunidade científica alerta para o impacto das nossas rotinas e do stress a elas associadas na qualidade do sono e no número de horas que dormimos. Diríamos que se trata quase de uma experiência empírica que a grande maioria de nós, se não todos, pode validar.

Quando dormimos menos horas ou dormimos mal, ficamos stressados e irritados. Às vezes, custa-nos pensar, decidir ou agir. Estes são sintomas que naturalmente associamos ao cansaço acumulado depois uma noite mal dormida.

A ausência de um sono reparador pode levar os neurónios a entrar em overwork. Compromete-se, assim, o correto processamento da informação e limita-se o acesso a informação aprendida. É inevitável, então, colocar a questão: Estarão os nossos jovens descansados o suficiente para aprender?

 

A importância do sono na consolidação da informação e aquisição de conhecimentos é indiscutível. Os primeiros estudos realizados sobre esta temática datam dos anos 20. Mas, só na última década, com recurso a neuroimagem, ressurgiu o interesse sobre a importância do sono na aprendizagem. No estado vígil, recebemos informação que só será selecionada e devidamente consolidada após um sono adequado. A revista National Geographic explica-nos o papel que o sono tem na memorização, referindo que “durante a noite, passamos da gravação à montagem”. É também durante o sono que são estabelecidas associações, que nunca poderiam ser feitas no estado de vigília. Essas ideias surgem, depois, como que intuitivamente.

 

Vai para a cama que o teu mal é sono!

São várias as notícias que nos alertam para o número de horas que as nossas crianças passam na escola. Os dados incidem especificamente sobre o tempo passado em contexto de aula. Além disso, abordam a cada vez mais reduzida oportunidade que os miúdos têm de brincar livremente. Isto porque as suas agendas são mais estruturadas e preenchidas do que as de alguns adultos.

 

As responsabilidades do dia a dia

Depois de um dia extenso de trabalho, é bastante provável que a maioria das crianças leve conteúdos de reforço para casa. Os chamados TPC obrigam-nas a continuar a trabalhar intensamente fora da escola.

Esta é também a realidade de muitos pais. Devido à necessidade de corresponder aos desafios profissionais e sociais e às exigências da vida familiar, mandam o sono “esperar”. E, quando finalmente estão dispostos a dormir, os compromissos, tarefas e preocupações são como sirenes incorporadas nas almofadas. Com efeito, impedem o sono de chegar e o corpo de descansar e recuperar de um dia intenso de trabalho.

Estes são fatores que interferem de forma preponderante no nosso organismo. Em função de necessidades de nível superior, colocamos em causa aquelas que são as carências mais básicas do nosso funcionamento. Falamos, por exemplo, do sono e da alimentação.

 

A dependência dos ecrãs

Fatores contextuais e ambientes também têm interferência com o nosso ciclo de sono. À noite, depois de todas as tarefas terminadas, é quando nos propomos a relaxar em frente à televisão ou a jogar um pouco no computador ou tablet.

No entanto, a exposição à luz azul destes dispositivos confunde o cérebro, dando-lhe sinais de que é dia. Dessa forma, inibe a produção de melatonina, a hormona que induz o sono no início da noite e tem o seu pico entre as 3h e as 5h da manhã.

Assim, frases como “mãe, não tenho sono” ou mesmo a simples agitação motora ao final do dia podem ser um reflexo da forma como internamente processamos a informação que nos chega da simples luminosidade dos nossos contextos.

 

Dormem as crianças o suficiente para aprenderem bem? Teremos de investigar! Este foi o convite a que desafiamos o leitor logo no início deste artigo. Quisemos também partilhar as diversas implicações que a privação de sono e um sono de má qualidade têm no funcionamento cognitivo e socio-emocional das crianças.

Os ritmos e estilos de vida da sociedade atual são, em parte, contrastantes com o ritmo biológico do nosso corpo. Consequentemente, têm implicações diretas na nossa saúde física e psicológica. A tecnologia e a ciência ajudaram-nos a compreender a complexidade de todas estas dimensões. Seremos nós, agora, capaz de repor a “simplicidade” do seu funcionamento? Fica o desafio!

 

Dra. Marta Marques
QInesis

 



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