Superproteção: Como protegemos excessivamente as crianças?

Superproteção

A superproteção das nossas crianças é um tema sobre o qual muito se tem escrito. Vivemos um momento em que não é óbvio distinguir entre o que é proteger e superproteger as crianças e os jovens. São, aliás, inúmeros os estudos que comprovam as consequências negativas desta superproteção.

Não me vou alongar acerca dos efeitos nefastos no desenvolvimento pessoal, nas suas mais diversas áreas. Isto porque, com uma rápida pesquisa, o leitor encontrará extensa bibliografia acerca do tema. Gostaria, ao invés disso, de me centrar um pouco mais nas formas como esta superproteção é aplicada e de como, na maioria das situações, nem nos apercebemos naturalmente.

 

12 Formas como superprotegemos os adultos do amanhã

  1. Superproteção do clima

Hoje em dia, criam-se filhos em redomas, onde não se pode ser criança na presença de qualquer intempérie. Não se pode brincar à chuva, ao vento, ao frio ou ao calor excessivo. Estes elementos naturais não são mais vistos assim. São, pelo contrário, considerados inapropriados ou até perigosos para a criança vivenciar e experienciar.

Portugal tem um dos melhores climas de entre os países ditos desenvolvidos. No entanto, em outros países (como os nórdicos), as crianças vivem intensamente na natureza, expostas à chuva e até à neve. Isto é fundamental para um crescimento saudável e o desenvolvimento de um sistema imunitário mais forte. Para além disso, provoca uma muito maior riqueza de sensações a nível exploratório.

  1. Superproteção dos perigos urbanos

Os adultos vivem com receios quase paranoicos acerca do que de mal pode acontecer se uma criança brincar na rua, sobretudo num meio urbano. Ensinar às crianças que as estradas existem, os carros existem, os desconhecidos existem (e nem sempre são mal intencionados) é muito melhor do que simplesmente promover o afastamento destas situações potencialmente perigosas.

É muito importante a aprendizagem dos limites e a aquisição de responsabilidade face a estas situações. Mas para tal é necessário que se possibilite e até incentive o acesso à rua, ao espaço exterior. Isto para que, inicialmente com o adulto, a criança aprenda a mobilizar-se e a usufruir de todo esse espaço.

  1. Superproteção dos acidentes de exploração

Para que uma criança se desenvolva na sua plenitude, tem de explorar e de correr riscos. Tem também de experimentar novos limites físicos e ir-se superando aos poucos. Às vezes, este processo implica algumas quedas, arranhões, choros… Tudo isso é passageiro, mas as aprendizagens que dessas experiências se tiram são de carácter permanente! As crianças e os jovens são dotados de um instintivo de sobrevivência muito mais forte do que nós, adultos, temos tendência a considerar!

  1. Superproteção dos desconhecidos

Numa sociedade em que cada vez menos as pessoas interagem entre si cara a cara, é normal que seja crescente o número de desconhecidos que connosco partilham os mesmos espaços. É importante que se ensinem o respeito pelos limites, tanto do outro como de si próprio. Mas é igualmente importante ensinar a criança a não viver numa cultura do medo, em que o perigo espreita a cada esquina e se desconfia de qualquer intenção desconhecida à partida.

Deixar as crianças brincar livre e autonomamente com outras que não conhecem é uma oportunidade excelente para que se possam desenvolver na sua gestão de relações com os outros. Esta é uma realidade mesmo que a brincadeira aconteça com a supervisão afastada do cuidador.

  1. Superproteção das más influências

A noção de que, ao conviverem com más companhias (de idades aproximadas), as crianças aprenderão necessariamente o mal não poderia estar mais errada. As dificuldades que alguns miúdos têm não são contagiosas como muitas pessoas pensam. Pelo contrário, podem revelar-se oportunidades para que uma criança mais segura, mais feliz, possa ensinar outra nas brincadeiras e nas relações.

Isto é de extrema importância para que a criança possa experimentar uma multiplicidade de situações, de mais ou menos conflito, em que possa aprender ensinando, desenvolvendo muito o autoconceito e autoestima de si mesma.

  1. Superproteção das relações amorosas

É suposto, durante a adolescência e juventude, passar por dificuldades nas relações de cariz amoroso ou nas amizades mais fortes. É essencial para os jovens sentir saudades, ansiedades e até algumas angústias nestas relações. Sem esta experimentação, tornar-se-iam insuportáveis os conflitos e as desilusões amorosas em relações já mais permanentes e/ou significativas.

Alternância entre apego e desapego, presença e ausência, permanência e fugacidade… Tudo isto é muito importante na construção da personalidade e nos fatores de resiliência do jovem.

  1. Superproteção do inesperado e do não-planeado

Vivemos diariamente na ilusão de que tudo tem de estar planeado e pensado até ao pormenor. Como consequência, caímos muitas vezes no erro de desejar o mesmo para as nossas crianças. Isto não só não é possível a 100%, como é exigir demasiado, criando expectativas irrealistas e sensações de insucesso desnecessárias.

Sem imprevisibilidade é muito difícil desenvolver capacidade de adaptação e descoberta de novas soluções através, por exemplo, de pensamento divergente. A necessidade de se ser original perde-se e, com ela, algo muito próprio da personalidade de cada um. Como alguém dizia: “A vida é o que acontece quando estamos ocupados a fazer outros planos!”.

  1. Superproteção do “tempo morto”

Parece, hoje, que deixar os miúdos cair num tempo não dirigido, em que nada lhes é solicitado, é quase negligência. A criança necessita e tem direito a tempo livre! Neste tempo, deve usar a sua própria imaginação para se ocupar. Assim, estimula as aprendizagens e as representações mentais do mundo que a rodeia.

  1. Superproteção da violência simbolizada

Também não devemos tentar isolar as crianças de tudo o que na realidade existe e consideramos, de certa forma, violento. Claro que deve haver algum cuidado na exposição aos conteúdos, mas não se deve exagerar nesta proteção. O matar e o morrer devem ser experimentados simbolicamente e as brincadeiras de destruição e criação são importantes neste processo. Censurar músicas infantis tradicionais e até alterar alguns jogos de tabuleiro são exemplos do extremismo em que às vezes caímos.

  1. Superproteção das tarefas de casa

A ideia de que a criança não tem obrigação de ajudar nas tarefas de casa, porque “é pequena” ou “menos capaz” ou porque “o seu trabalho é a escola”, é altamente prejudicial. Com efeito, é uma forma excelente de a envolver nas dinâmicas familiares. Ensina-a, capacita-a e potencia também a sua autonomia e autoconceito.

Também aqui a relação com a família é trabalhada, aumentado o sentimento de pertença! Incluir a participação da criança nas dinâmicas familiares é uma prova de confiança, é uma forma de Amar!

  1. Superproteção do fracasso

Dar tudo de mão beijada aos miúdos retarda e muito o seu desenvolvimento. Os pequenos desafios são fundamentais para haver crescimento e são, às vezes, prazerosos para os pequenos.

A criança precisa e desfruta de pequenas conquistas diárias, que a vão catapultar para maior autonomia e autoconfiança! É normal não se conseguir à primeira. O importante é proporcionar momentos de aprendizagem, que é feita com pequenas tentativas-erro. Este processo é também fundamental para o desenvolver da resiliência, fator crucial ao longo de toda a vida.

  1. Superproteção da escassez

As crianças não têm de ter tudo o que veem! A abundância de brinquedos e bens materiais não vai torná-las mais felizes. Pelo contrário, muitos objetos limitam a imaginação ativa da criança, ocupando imenso espaço físico e mental. Fazem-na sentir-se solitária e isolada caso não tenha companheiros de brincadeira disponíveis para explorar todos os objetos que lhe pertencem.

Só porque o amigo tem, não quer dizer que ela também deva ter. As coisas materiais jamais substituem numa criança a presença de relações de qualidade e tempos de interação humana.

 

Estes são apenas alguns pontos-chave que gostaria de partilhar, então, com o leitor, de forma a chamar um pouco a sua atenção para o quão complexo e multifacetado é o tema da superproteção de que tanto se fala hoje!

Espero que levem cada ponto também como uma dica para poderem mais conscientemente colocar em prática!

 

Atentamente,

Dr. João Coelho
QInesis

 



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