Castigo: Quando e porque deve aplicá-lo?

castigo

Um castigo acontece, geralmente, quando as expectativas dos pais não correspondem ao comportamento ou atitude dos filhos perante determinada situação. Este desfasamento provoca uma reação de tensão ou stress que culmina, então, na aplicação de uma reprimenda.

Muito raramente o castigo aplicado é bem refletido previamente pelo pai e compreendido imediatamente por parte do filho. Por outro lado, se um miúdo aceitasse simplesmente qualquer castigo sem se opor, poderia ser indicador de uma eventual perturbação no seu desenvolvimento. Isto porque não é expectável que a criança compreenda ao mesmo nível de um adulto informado nem que aceite sem revolta qualquer situação que lhe imponham.

 

Porque recorremos aos castigos?

De modo geral, os castigos são utilizados como uma ferramenta educativa. Visam que a criança compreenda que algo na sua ação foge à norma ou ao positivo. É um alerta de que algum aspeto na sua atitude deve mudar.

Os adultos recorrem a esta ferramenta para moldar comportamentos dos filhos. Fazem-no de acordo com os valores morais que defendem e que querem passar à geração seguinte.

Muito se tem debatido sobre a ética a considerar aquando da aplicação do castigo. Terá resultados concretos na criança? Esta pode ficar revoltada ou até traumatizada? Serão os castigos abusivos? Até que ponto devem ser justificados? Terá a criança alguma palavra a dizer? Estas e outras questões semelhantes têm sido tema de discussões entre pais e profissionais de diversas áreas.

Numa sociedade em que o ritmo de vida é acelerado, é cada vez mais difícil ter tempo para uma educação saudável e eficaz, num ambiente securizante e orientador ao mesmo tempo, em que o exemplo vale mais do que as palavras reprovadoras.

Assim, é muito fácil os pais caírem na armadilha de recorrer ao castigo como forma de imposição da sua vontade. Às vezes, chegam até a descarregar nos filhos as frustrações que consigo carregam até casa, acumuladas durante mais um dia de trabalho extenuante.

Casos há também em que um castigo não passa de uma mera demonstração de poder ou superioridade física. São situações em que a punição procura a modificação do comportamento através do medo. Ameaças físicas e verbais enquadram-se neste ponto.

 

Primeiro, tentar compreender

Vivemos num contexto social em que, aparentemente, não há tempo para os pais compreenderem os filhos! Deveriam, primeiramente, tentar entender a atitude das crianças e só depois procurar ser compreendidos.

O diálogo anterior a um castigo é fundamental para que surja uma ligação empática. Esta, por sua vez, revela-se essencial para que a repreensão ensine realmente alguma coisa aos filhos. Sem isto, a criança colocará imediatamente o pai numa figura autoritária, emocionalmente distante de si. Encará-lo-á, portanto, como alguém que não a compreende e que apenas se preocupa em mostrar que “quer, pode e manda”!

Para uma criança, alguém que não a compreende equivale a alguém que não pode ser compreendido, sabotando à partida o próprio intuito do castigo.

 

Quando devo recorrer a um castigo?

Cabe aos pais fazerem uma introspeção sagaz acerca da mensagem que querem ensinar aos filhos. Como estes a irão compreender ou não? Há realmente uma mensagem a ensinar? Ou trata-se apenas de uma necessidade dos pais de libertarem o tal stress acumulado ao longo do dia e que culmina ao depararem-se com uma “pequena birra sem sentido” que a criança faz?

A melhor forma de evitar um castigo mal aplicado é realmente esta reflexão. Será apenas uma birra? Terá algum sentido mais complexo por trás? Uma razão de ser? Ou serei eu próprio (pai) a necessitar de “fazer uma birra” porque o dia foi feito de situações injustas e eu também preciso que me compreendam?

Se, após esta reflexão prévia, houver de facto algo lógico a apontar, então deve proceder-se ao diálogo com a criança. Após o emotivo da situação deixar de nos toldar o raciocínio, devemos dialogar numa forma comunicativa. Isto porque, apesar de o castigo não ser agradável para ela, tornará a relação mais forte. E é este o sentimento que a criança recordará mais tarde, ao invés da revolta de estar a ser castigada.

Caso contrário, é a altura perfeita para evitar um castigo que não traria nada de construtivo, mas sim de conflituoso.

 

Tem o castigo consequências permanentes?

Os pais preocupam-se demasiado com as marcas que um castigo possa deixar. Uma punição bem aplicada, e devidamente justificada, não deixa marcas negativas. São precisos castigos mal aplicados frequentes e durante longos períodos para que o filho fique com os tão temidos “traumas”.

As crianças são dotadas de muito mais resiliência do que alguns pais são, hoje em dia, levados a crer. E a desestruturação educativa pode ser muito mais prejudicial e traumática do que uma educação mais ríspida mas coerente e refletida (entre pais e filhos).

Também os pais carregam consequências dos castigos que aplicam aos seus filhos. Isto não deveria acontecer, pois é um mau indicador. Normalmente, é o arrependimento por parte dos pais ao perceberem que uma advertência foi feita de forma precipitada. É também o medo de que a criança venha a deixar de gostar deles devido aos castigos!

O nível de preocupação que os pais têm relativamente a isto não é, de todo, saudável. É, pelo contrário, contranatural.

 

Qual a verdadeira utilidade de um castigo?

Um castigo bem aplicado serve de limites às crianças. E estas têm necessidade destes limites para se sentirem seguras e cuidadas! Muito pior é aquele pai ausente, que não liga, porque não se importa ou porque pensa que não sabe como educar os filhos sem que estes lhe ganhem ódio ou rancor.

Às vezes, maus comportamentos atípicos de uma criança que costuma ser bem comportada são chamadas de atenção para os pais. Querem dizer “hei, estou aqui”, procurando uma resposta responsável, que mostre que os pais estão presentes e atentos!

Nesta situação, os castigos tornam-se até duplamente importantes. Sobretudo quando os pais percebem esta razão de chamada de atenção e passam a estar mais presentes para as crianças em atividades familiares, por exemplo.

 

Em suma…

Os castigos não são um bicho-de-sete-cabeças impossível de desmistificar, nem são inimigos de uma educação saudável. São um recurso natural que, mais do que um dever dos pais, é também um direito das crianças!

Conhecer um pouco mais sobre isto pode ser o primeiro passo para potenciar uma melhor relação pais-filhos, maximizando a educação destes. Afinal, ao ensinarmos, todos aprendemos um pouco.

 

Até à próxima. Eduquem os vossos filhos a serem felizes!

 

QInesis
Externato Marcelino Champagnat

 



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