Infância: Porque dizem que “as crianças não sabem fazer nada”?

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A infância é o período mais rico do desenvolvimento humano. Assim, respeitar o tempo e os timings das crianças é fundamental para um crescimento saudável.

Vivemos um momento em que constantemente se fala em produtividade e em ser produtivo. Discorremos sobre o impacto que isso pode ter nas nossas vidas. Pensamos ainda em como podemos preparar as nossas crianças para serem adultos produtivos e atingirem o seu potencial.

Há que, primeiramente, distinguir o termo produtividade do conceito de produção. Produzir muito, “mostrar trabalho”, não é, de todo, sinal de que somos mais produtivos ou indivíduos mais eficazes.

Para o sermos, é fulcral sabermos nutrir-nos e cuidar de nós, desenvolvendo-nos física, cognitiva e emocionalmente. Só assim poderemos estar preparados para fazer não só o que nos é solicitado, mas também aquilo que desejamos.

 

O poder das solicitações na infância

Não é saudável esperar da criança o mesmo que de um adulto. Não é expectável que esta consiga sempre responder às solicitações que os crescidos ou o mundo envolvente lhe apresentam. Com efeito, exacerbar os miúdos com pedidos baseados naquilo que deles expectamos é sinónimo de não permitir o tempo que eles precisam para se desenvolverem internamente, como um todo.

Ao estarmos constantemente a dirigir o horário completo de uma criança, ensinamo-la a ser um adulto puramente reativo. Isto é, que reage ao que os outros precisam e não proativo para o que autonomamente deseja. Tal refletir-se-á na sua personalidade e nos seus comportamentos ao longo da vida. Ademais, marcará de forma extremamente negativa a sua vida adulta.

Uma pessoa que, na infância, não pôde experienciar suficientemente os seus momentos não dirigidos torna-se dependente das solicitações externas. Consequentemente, pode cair em angústia nos momentos em que estas não estão presentes.

Por outro lado, se facultarmos à criança tempo livre, sem solicitar ou dirigir atividades, permitimos-lhe tempo de jogo simbolizado, criativo, planeado e estruturado autonomamente. Possibilitamos-lhe também desenvolver a criatividade, pensamento divergente e resolução de problemas!

 

Receios de adulto

O facto de uma criança estar parada significará que se encontra entediada ou desorientada, sem saber o que fazer? Pelo contrário, não saber estar parada será sinónimo de alguém incapaz de refletir e de se concentrar ou conter socialmente? Estes são dois receios muito comuns entre cuidadores ou adultos responsáveis por crianças. Contudo, nenhuma destas situações é sinal indubitável de que algo está mal com o seu processo desenvolvimental.

Pelas características inerentes à infância, não devemos recear que, ao não ter orientação constante, a criança caia num momento de marasmo ou apatia. A fértil imaginação que possui, aliada à sua plasticidade mental, é nestes momentos utilizada de forma criativa e construtiva, organizando a sua psique.

Uma pessoa sempre habituada a responder a solicitações é muito mais suscetível de não saber não fazer nada. É o contrário do que acontece com uma criança que tenha regularmente tempo livre para si.

Ao longo da vida, os adultos habituam-se a ver o mundo e os objetos de forma tendencialmente funcional. Em contrapartida, na infância, os pequenos costumam alimentar a imaginação e diversos significados para os objetos. Subjetivam-nos e conferem-lhes novos sentidos que não deixam de nos surpreender!

 

O que realmente se passa

Todos os seres humanos alternam entre uma expressividade motora mais enérgica e momentos de calma e quietude. A experiência de vida e as vivências que são proporcionadas ao indivíduo permitir-lhe-ão controlar, dirigir, expressar ou reprimir o seu movimento de forma mais assertiva ou concordante com as suas emoções.

Podemos pensar nisto como uma espécie de literacia motora. Um desenvolvimento rico e saudável, respeitando os nossos momentos, torna o indivíduo mais capaz a nível motor.

Na idade adulta, é prática comum trabalharmos sobre o nosso corpo, para que nos sintamos mais tranquilos, felizes e capazes. Já na infância, com menos experiências e vivências, o nosso movimento reflete de forma mais crua aquilo que dentro de nós se passa.

Trata-se apenas disso: um processo de aprendizagem constante. Para que este aconteça, cabe aos adultos proporcionar às crianças o espaço e o tempo propícios!

 

Dr. João Coelho
QInesis

 



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