Brincar: Porque são tão importantes as brincadeiras?

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Brincar é uma palavra à qual, às vezes, é atribuída uma conotação negativa. Expressões que ouvimos no dia a dia, tais como “Estás a brincar ou a falar a sério?” e “Só podes estar a brincar!” fazem-nos pensar na brincadeira como algo desnecessário, inconsequente e até mesmo contraproducente. Nada podia estar mais longe da verdade!

Brincar é algo muito sério! Faz parte integrante do desenvolvimento do ser humano (e de todos os animais, aliás) por boas razões! Trata-se de uma das principais ferramentas de que dispomos que são precursoras da aprendizagem. É, além disso, fulcral em todo o nosso desenvolvimento ontogénico, do nascimento até à velhice. Manifesta-se na sua forma mais pura e congruente nas primeira e segunda infância e, num estilo de vida saudável, até à idade adulta.

Espero com este pequeno artigo sensibilizar o leitor para o porquê de brincar ser tão importante para as crianças.

 

A importância dos jogos de espera e repetição

Logo desde o nascimento, as crianças começam a interagir com os pais em algumas brincadeiras. Por exemplo, o pai/mãe cobre os olhos e depois encara a criança sorrindo, num jogo de espera e repetição. Esta alternância entre pausas e comunicação com o olhar transmite ao filho prazer por comunicar e confiança na presença do adulto.

Algo tão simples coloca a criança em pequenas esperas, ciclos fundamentais para desenvolver a resiliência e resistência a futuras frustrações. Ademais, confere-lhe a capacidade de distinção entre o que é contínuo e interrupto, trabalhando a sua noção espaço-temporal.

Posteriormente, a criança começa a imitar as expressões faciais que observa e a modelar e desenvolver uma comunicação não-verbal mais expressiva. Assim, complementa a sua linguagem verbal ainda proto-declarativa.

Nesta fase de desenvolvimento mais sensório-motor, sentidos como a visão e a audição vão evoluindo. Adaptam-se ao meio que rodeia a criança, para que esta possa aprender e apreender o que à sua volta se passa e existe.

 

Crescer e desenvolver habilidades a brincar

À medida que interage com o meio, a criança vai integrando cognitivamente objetos, locais e pessoas. Fá-lo mesmo quando estes não estão fisicamente presentes, sendo substituídos por palavras ou nomes que os representam. Os miúdos aumentam, assim, o seu repertório vocabular. Além disso, desenvolvem as suas capacidades, posturas e habilidades motoras.

Esta nova etapa possibilita a criação de brincadeiras diferentes. O faz de conta, por exemplo, permite às crianças a experimentação de papéis que só mais tarde se tornarão realidade para elas. Os colegas de escola tornam-se, geralmente, os parceiros escolhidos para estes novos jogos.

Quem nunca brincou ou viu crianças a brincar aos médicos ou às casinhas? Quem nunca, na infância, fantasiou ser bombeiro, astronauta, detetive, médico ou cientista? E quem não experimentou comportamentos e enfrentou desafios e tarefas como se fossem uma realidade?

Estes jogos são extremamente importantes. Neles, as crianças permitem-se a cuidar do outro (ainda que simbolicamente) tal como foram e são cuidadas pelos adultos. Podem ainda conhecer e desenvolver emoções, aprender a lidar melhor com as mesmas e a expressá-las corretamente aos outros.

Assumir papéis simbólicos obriga ainda os miúdos a adotar e cumprir regras segundo a personagem que estão a representar. Este é um passo importante para poderem também compreender e aceitar imposições e normas sociais presentes ao longo da sua vida.

 

Recreio: Liberdade, autonomia e respeito pelos outros

Há outra questão que importa lembrar. Num contexto tão livre e pouco dirigido pelos adultos como é o recreio, são as crianças quem tem de escolher as brincadeiras. É a elas que cabe decidir com quem brincar e aceitar ou recusar as propostas dos colegas com quem brincam.

Este é um momento perfeito para desenvolver autonomia, iniciativa, aceitação e imposição de limites, bem como respeito pelas ideias dos outros. Em causa estão ferramentas que sabemos ser importantes na vida adulta.

Em suma, é fundamental haver espaço e tempo para brincar, algo necessário (e não opcional) para o desenvolvimento sensorial, motor, cognitivo, criativo, emocional e afetivo.

 

Dr. João Coelho
QInesis

 



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