Bullying: Como lidar com situações de violência em meio escolar?

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O bullying preocupa alunos, pais e educadores. A escola, enquanto promotora de conhecimento e saúde, aborda os alunos como pessoas completas. Os valores e oportunidades determinam comportamentos que se interrelacionam de uma forma sistémica. Educar para a saúde e cidadania constitui, com efeito, um desafio à capacidade crítica das pessoas e à sua assertividade para contrapor ao meio circundante a sua vontade esclarecida.

Contudo, a escola, sozinha, não levará os alunos a adquirirem comportamentos e atitudes saudáveis. Pode e deve, conjuntamente com a família, fornecer elementos que os capacitem para a escolha de uma vida saudável.

É importante preparar os alunos para saberem agir face a situações de conflito ou violência em meio escolar. Para isso, é essencial saber o que são, afinal, conflitos interpares e violência.

A designação conflitos interpares inclui os incidentes que traduzem um disfuncionamento das relações formais e informais entre alunos. Pode manifestar-se em comportamentos agressivos e violência (extorsão de bens, violência verbal ou física, intimidação sexual, roubo ou vandalismo).

A violência traduz-se no facto de alguém, de forma esporádica ou persistente, entrar no espaço íntimo de outrem, a fim de, pela força, nele exercer controlo e domínio. Engloba abuso de poder (físico, sexual, psicológico, verbal…). Todas estas variantes podem manifestar-se no domínio da vida escolar.

Surge, assim, a designação bullying, uma subcategoria do comportamento agressivo. Esta conduta intencional apresenta um carácter repetitivo e sistemático. Evidencia desigualdade de poder entre os alunos envolvidos e níveis de afeto desiguais (os agressores sentem-se superiores, fortes e com poder).

 

Será o bullying um fenómeno novo?

O bullying não é um fenómeno novo, mas hoje revela uma maior visibilidade. Esta foi conseguida, em parte, através da atenção dos media, da divulgação de estudos pela comunidade científica e de uma maior sensibilidade e preocupação com os direitos das crianças e respetivas medidas de proteção.

É importante salientar que bullying não é conflitos nem jogos de luta e que é exercido em vários domínios:

  • Psicológico: Ameaçar com gestos, coação, extorsão, chantagem ou chamadas anónimas;
  • Sexual: Exibicionismo, assédio, comentários ou insultos de natureza sexual ou divulgação de imagens íntimas;
  • Físico: Bater, empurrar, dar pontapés, passar rasteiras ou perseguir;
  • Relacional: Excluir um colega do grupo, ignorar ou espalhar rumores.

Estes comportamentos podem ocorrer em vários locais:

  • Escola: Sala de aula, recreio (principalmente no 1º e 2º ciclos), cantina, WC, balneários, corredores (principalmente no 3º ciclo e secundário), instalações desportivas e zonas exteriores isoladas (fora da supervisão de adultos).
  • Fora da escola: Percurso casa-escola, centros comerciais e zonas de lazer.
  • Casa: Abuso entre os pais (maltrato conjugal), ameaça e intimidação entre irmãos e maltrato e abuso de menores ou idosos (quando um elemento da família utiliza o seu poder para controlar outro, de forma abusiva).

Importa esclarecer que o bullying pode ser praticado através de comportamentos diretos ou indiretos. Os primeiros implicam um envolvimento face-a-face, em que os envolvidos se encontram diretamente implicados no incidente. Já os segundos não envolvem uma confrontação direta, mas usualmente relacional, com o intuito de danificar relações. Pode ser praticado através das novas tecnologias (cyberbullying).

 

O que é o cyberbullying e que ações contempla?

Na atualidade, surge o cyberbullying. Trata-se de um tipo de agressão invisível, que não acontece nos recreios, nos refeitórios ou no caminho entre casa e a escola, mas que está a espalhar-se rapidamente.

Consiste, pois, em comportamentos de bullying, utilizando as novas tecnologias. A agressão é feita através da internet ou de telemóveis com câmaras de filmar e/ou fotografar. Estes constituem o meio privilegiado para ações que partem de sentimentos de zanga e revolta contra outrem.

No cyberbullying, utilizam-se as ferramentas tecnológicas como mediadoras da agressão. O agressor pode ser menor ou mais fraco que a vítima. O facto de não ver de imediato os efeitos/consequências dos seus atos pode minimizar eventuais sentimentos de arrependimento ou empatia para com as vítimas. Por conseguinte, pode haver uma maior brutalidade nas suas palavras ou atos do que seria esperado no bullying presencial.

Em suma, o cyberbullying contempla as seguintes ações:

  • Fazer circular mentiras, ameaças, humilhações ou fotos embaraçosas entre um público muito maior;
  • Criar páginas de perfil falsas nas redes sociais;
  • Utilizar blogs para difamar;
  • Roubar nicknames e passwords e, em seguida, enviar mensagens de provocação ou humilhação aos amigos e namorados ou até mesmo aceder a dados e materiais particulares dos colegas;
  • Divulgar imagens intencionalmente captadas com o intuito de causar dano, embaraço ou humilhação (happy slapping).

O fácil acesso às novas tecnologias, a violência dos media, a falta de controlo/supervisão parental, a inexistência de consequências e a falta de feedback tangível são fatores facilitadores do cyberbullying.

 

Bullying na escola: Tendência evolutiva e níveis de incidência

No pré-escolar, as crianças são demasiado egocêntricas para desenvolver estratégias de intencionalidade para causar dano no outro. Ainda assim, o bullying existe nesta fase do ensino. Pode ser reconhecido precocemente através da identificação de estilos comunicativos e interativos mais agressivos ou mais passivos.

Verifica-se uma tendência para o aumento da incidência de bullying desde o 1º ciclo. Este comportamento atinge o seu pico pelos 13 anos de idade (8º ano), sendo mais frequente na pré- adolescência. Verifica-se uma propensão para a diminuição progressiva dos maus-tratos ao longo do secundário.

As crianças mais novas parecem não possuir ainda as competências sociais e de assertividade necessárias para lidar eficazmente com o bullying e desencorajar episódios futuros. À medida que as competências verbais e sociais se desenvolvem, são capazes de articular as suas necessidades/desejos sem recorrer tão frequentemente à agressão.

A proporção de crianças que utiliza formas de agressão física declina com a idade. Em contrapartida, as que usam formas de agressão verbal e indireta aumentam na pré-adolescência. O assédio sexual é mais tardio. Aumenta na adolescência e relaciona-se com a puberdade e a composição heterossexual do grupo de pares.

 

As motivações do agressor e os receios da vítima

O bullying é uma realidade escondida/camuflada devido ao reduzido número de queixas, o que condiciona a sua identificação e resolução. Neste processo, podem encontrar-se várias fontes informativas:

  • Agressores: Consideram que a agressão é sentida como socialmente reprovável;
  • Vítimas: Raramente contam que o são. Várias razões, que apontamos abaixo, levam-nas a não falar;
  • Observadores: Toleram ou ignoram este fenómeno, por receio de atrair atenções do agressor;
  • Professores e pais: Desconhecem, na maioria dos casos, esta realidade, quer porque ocorre em espaços fora da sala de aula/casa, quer porque não é relatada.

 

Que razões levam a vítima a não contar?

  • Vergonha por não conseguir defender-se e sujeitar-se aos ataques;
  • Sentimento de incapacidade e humilhação;
  • Ignorância e desconhecimento de como (re)agir eficazmente, principalmente entre crianças mais pequenas, que não percebem que o comportamento é errado;
  • Resignação: A vítima acha que a culpa é sua (que há algo de errado consigo) ou suporta a agressão na esperança de que os ataques terminem por si;
  • Descrença ou receio da reação dos outros: A vítima teme que não acreditem ou não valorizem as suas queixas, que a critiquem por não ser capaz de resolver à situação, que se zanguem ou que não façam nada;
  • Medo de represálias.

 

O que motiva o agressor?

Perceber a motivação subjacente ao comportamento agressivo fornece pistas para elaborar estratégias de intervenção adequadas ao perfil dos alunos agressores. Estas visam não só uma alteração de comportamentos, como também uma resposta às suas necessidades. Deve-se, portanto, estar atento ao seguinte:

  • Procura de atenção e necessidade de provocar uma reação nos outros membros do grupo;
  • Sentimento de rejeição e insegurança;
  • Necessidade de aprovação pelos pares;
  • Necessidade de se sentir mais importante;
  • Desejo de protagonismo e de impressionar: Acredita que o seu comportamento é emocionante e que o torna mais popular;
  • Instinto de sobrevivência primário, provocado por um menor amadurecimento socioemocional, que o leva a aderir ao grupo e a atacar os mais vulneráveis;
  • Obtenção de bens/pertences de outrem.

 

Sinais de alerta a que escola e família devem estar atentos

O sofrimento a que as vítimas de bullying são sujeitas é manifestado através de alguns comportamentos. A família e a comunidade escolar devem manter-se atentos aos seguintes sinais:

  • Têm livros, materiais escolares ou outros pertences estragados ou escondidos;
  • Apresentam ferimentos, cortes, arranhões e nódoas negras, bem como rasgões ou outros danos na roupa;
  • Encontram-se frequentemente isoladas ou excluídas do grupo de pares durante os intervalos;
  • São as últimas a ser escolhidas para jogos de equipa;
  • Procuram proximidade com o professor ou outros adultos durante os intervalos, o almoço ou os tempos livres;
  • Não costumam levar colegas da escola para casa, não passam tempo em casa de colegas e raramente recebem convites para festas;
  • Parecem receosas ou relutantes em ir para a escola de manhã (queixam-se frequentemente de dores de barriga ou cabeça);
  • Desmotivam, manifestam baixo interesse pela escola e diminuem o aproveitamento;
  • Apresentam súbitas alterações de comportamento (tristeza, enurese noturna, tiques, problemas de sono, pesadelos, perda de apetite, choro, gaguez…)
  • Tornam-se mais isoladas e hipersensíveis a críticas;
  • Querem mudar de turma ou de escola sem motivo aparente;
  • Precisam de mais dinheiro do que o habitual ou “perdem” o dinheiro que levam para a escola;
  • Pedem frequentemente que alguém os acompanhe ou vá buscar à escola.

Após a identificação destas situações, devem desenvolver-se estratégias que diminuam as reações acima referidas. As vítimas podem ainda adotar comportamentos de assertividade.

 

Comportamentos a evitar e estratégias a adotar pela vítima

Comportamentos a evitar:

  • Franzir as sobrancelhas, revirar os olhos, fazer caretas, cruzar os braços ou colocar as mãos sobre os ouvidos;
  • Ficar envergonhado, fugir, gemer, gritar ou falhar na tentativa de arranjar uma resposta rebuscada;
  • Tropeçar, entornar a comida ou qualquer outro ato desastrado;
  • Chorar, ficar zangado ou perder o controlo emocional.

Estratégias de coping para vítimas:

  • Dizer a alguém: Relatar o incidente de violência ou bullying é o primeiro passo para lidar com o problema e tentar encontrar uma solução;
  • Ter um amigo: Ter, pelo menos, um bom amigo na escola é um recurso fundamental para os problemas de vitimização. Também pode ser uma estratégia real, evitando que o aluno vitimizado permaneça isolado e facilmente exposto ao ataque;
  • Manifestar indiferença: Transmitir que não se importa e não se sente afetado pode ser uma estratégia eficaz. É completamente diferente de aceitar passivamente a situação. Indiferença não é apenas ignorar o facto, mas também ter uma atitude positiva, para não se deixar abater;
  • Disfarçar: Quando se é vitimizado, disfarçar a sua zanga ou medo e responder de forma neutra reduz o reforço que o agressor espera;
  • Envolver-se no esquema de apoio aos pares: Estes esquemas podem adquirir uma série de formas. Muitas vezes, as crianças que foram ajudadas pelos pares querem devolver esse benefício de alguma forma, ajudando outros colegas em risco. O resultado é imediato: o aluno ganha um círculo de amigos útil.

 

Uma aposta na capacitação: Qual o papel da família?

Existem algumas competências-base nas crianças que são desenvolvidas em contexto relacional de qualidade. Estas podem prevenir o envolvimento em comportamentos de bullying e/ou a evolução para perfis comportamentais de risco (prepotente – agressor/impotente – vítima).

Assim, podem e devem ser reforçadas as seguintes competências, não só em meio escolar, mas também em meio familiar:

  • Capacidade de reconhecimento e experiência emocional;
  • Assertividade;
  • Capacidade de descentração (decorrente da capacidade empática);
  • Aptidão para a resolução de problemas (ênfase na procura de soluções alternativas);
  • Boa autoestima;
  • Habilidade de autocontrolo (passagem ao ato, impulsividade);
  • Capacidade de aceitar e tolerar as diferenças.

 

É fundamental pensarmos que apenas com o auxílio dos pais se assegura nos filhos o desenvolvimento das competências acima mencionadas. Só o conjunto elaborado e coerente de intervenções sobre a pessoa (criança /adolescente/adulto) a leva a querer, poder ou saber adotar, de forma responsável, livre e esclarecida, as atitudes e os comportamentos adequados para favorecer a sua saúde e a do seu grupo.

 

Anabela Escobar

Professora de História e HGP

Coordenadora do Departamento de Ciências Sociais e Humanas

 



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